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III Jogos Indígenas da UFT Miracema: mais que competição, um reencontro de culturas, afetos e resistência
Na noite de abertura do III Jogos Indígenas da UFT (26), o que se viu foi um evento construído pelos indígenas e para os indígenas. A cerimônia foi conduzida por Nahuria Javaé, estudante do curso de Psicologia, e por Valdez Mãrawe Xerente, estudante de Pedagogia e cacique da Aldeia Karehu. Também foram os representantes das etnias presentes que deram as boas-vindas em suas línguas maternas, em um dos momentos mais marcantes da noite.
As delegações vieram de Arraias, Araguaína, Gurupi, Miracema, Palmas e Tocantinópolis, reunindo representantes da Universidade Federal do Tocantins e da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). A solenidade teve início com o discurso do ancião Reinaldo Kupte Xerente, do clã Wahirê, seguindo a tradição cultural Akwẽ-Xerente.
Mais do que um evento esportivo, os Jogos Indígenas reafirmam a presença viva dos povos originários dentro da universidade. Atualmente, cerca de 33% dos estudantes da UFT Miracema são indígenas. A universidade se consolida, assim, como espaço de diversidade, diálogo intercultural, produção de conhecimento e fortalecimento das identidades indígenas.
Uma das organizadoras do evento, a vice-diretora do Câmpus de Miracema, a professora Luciane Silva de Souza, destacou que os jogos representam muito mais do que competição. Segundo ela, o encontro é um momento de acolhimento, confraternização e reencontro entre parentes de diferentes povos e câmpus da UFT e da UFNT: “Esse evento é mais do que uma competição. Ele é uma confraternização, um momento de acolhida, de rever os parentes. É também mostrar cultura e mostrar que esse espaço pertence à diversidade”, afirmou.
Luciane também destacou que todas as modalidades presentes nos jogos fazem parte das práticas culturais indígenas, valorizando os esportes tradicionais dos povos originários.
Reencontros
Entre abraços, conversas e risadas, uma palavra apareceu repetidas vezes nas falas dos participantes: reencontro. Para muitos estudantes indígenas, os jogos são a oportunidade de rever parentes, amigos e lideranças que vivem em diferentes regiões do estado.
Ricardo Xerente, estudante de Palmas e atual presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), contou que o momento vai muito além das mensagens trocadas pelas redes sociais. “É um momento único pra gente. Aqui a gente aperta a mão, vê os amigos, as primas, os parentes. É diferente do celular. É um momento muito único de felicidade para nós”, disse Ricardo que reencontrou o sogro, parentes e amigos.
Darsilva Xerente, da delegação de Arraias, comparou os jogos às festas culturais realizadas nas aldeias: “Os Jogos Indígenas de Miracema são mais que um acolhimento. Aqui a gente compartilha o que temos entre as várias etnias, aprende com os outros parentes, conhece outras línguas e outras características culturais”, destacou.
Para Andreia Apinajé, de Tocantinópolis, os jogos representam o fortalecimento das identidades indígenas e da ancestralidade deixada pelos antepassados. “É uma felicidade imensa estar aqui. A gente está continuando e fortalecendo a nossa identidade”, afirmou.
Larieny Xerente, estudante de Miracema, resumiu o sentimento compartilhado por muitos participantes ao afirmar que os jogos representam um retorno simbólico para casa.
“Jogos significa a nossa cultura, a nossa resistência, o nosso modo de ser e de viver. Acredito que os jogos trazem um pouco dessa saudade de casa”, contou.
Já Luis Carlos Xerente destacou que o encontro fortalece a continuidade cultural dos povos indígenas: “Não é somente uma competição, mas um reencontro dos parentes. Cada um com a sua língua. Isso é um momento muito especial pra nós”, disse.
Cultura viva
Além das modalidades esportivas, a cerimônia contou com apresentações culturais e momentos de celebração coletiva. Diversos participantes destacaram que aquilo que o público acompanhava era apenas uma pequena parte da riqueza cultural de cada povo presente.
A estudante de pedagogia, Letícia Xerente, coordenadora geral discentes indígenas, reforçou que os jogos representam união, fortalecimento e integração entre indígenas e não indígenas. “Vai além de jogos. É um momento de representar a nossa cultura, a nossa identidade e a integração entre nós, povos de várias etnias”, afirmou.
O ancião Domingos Simnã Xerente também ressaltou a importância da aproximação entre universidade e povos indígenas.
“A universidade nos abraçou e nós também abraçamos a universidade. Nós podemos estudar, ocupar diferentes espaços, mas continuamos sendo indígenas”, destacou.
Ele também chamou atenção para a importância do acesso à educação como ferramenta de preservação cultural: “Hoje nós registramos com áudio, com vídeo. Isso é muito importante para preservar mais a nossa cultura”, afirmou.
A cerimônia reuniu não apenas estudantes e lideranças indígenas, mas também membros da comunidade acadêmica e moradores da cidade. Entre eles estava Maria Aparecida, que acompanhou atentamente a abertura. “Eu gostei muito. Nunca tinha visto antes”, comentou.
A cerimônia de abertura terminou com o assentimento da toxa, e seguindo a tradição dual da cultura Akwẽ-Xerente, o discurso final do ancião Domingos Simnã Xerente, do clã Kuzâ.
Os jogos indígenas seguem até o dia 28 de maio, no Câmpus de Miracema, nas Unidades Warã e Cerrado, com aproximadamente 200 atletas, expositores e artistas. O evento é aberto ao público.