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Entre linhas, tecidos e afeto: Incubadora Social da UFT fortalece empreendedorismo feminino e moda sustentável em Palmas
É sábado à tarde e o som das máquinas de costura se mistura a conversas e risadas em uma pequena sala cedida pela organização Unidos Por Um Mundo Melhor (UPMM) na sede da Associação de Moradores do Setor Aureny I, em Palmas. Entre cortes de tesoura, moldes espalhados sobre as mesas e pilhas de tecidos, mulheres costuram ali mais do que peças de vestuário: constroem vínculos, autonomia e uma rede de apoio coletivo.
É nesse ambiente simples, mas carregado de significado, que acontecem as oficinas da fase de pré-incubação promovida pela Incubadora Social da Universidade Federal do Tocantins (UFT), que começaram no início do mês de abril e seguem até o fim do mês de junho com encontros semanais. Participam da iniciativa dois grupos comunitários de costureiras — “Moda e Arte” e “Mulheres que Fazem” — compostas por cinco mulheres cada, selecionadas por edital.
O projeto reúne capacitação em empreendedorismo, design de moda e customização de roupas por meio do upcycling, técnica de reaproveitamento criativo de materiais. Para isso, as participantes contam com o apoio especializado de duas consultoras, máquinas de costura industriais e centenas de quilos de roupas apreendidas pela Delegacia da Receita Federal em Palmas (DRF/Palmas) que foram doadas para a Incubadora Social da UFT.
Em cada oficina, com atividades práticas e teóricas, as mulheres compartilham conhecimentos técnicos acumulados ao longo de anos de experiência na costura, mas também histórias de vida, dificuldades individuais e sonhos em comum. Enquanto uma ensina um acabamento, outra mostra uma forma diferente de cortar o tecido ou adaptar uma peça. Entre uma orientação e outra, surgem conversas sobre maternidade, trabalho, família e superação.
"A proposta da Incubadora é justamente fortalecer esse ambiente comunitário e colaborativo, em que o conhecimento circula de forma horizontal", explica a coordenadora pedagógica, Ariadne Feitosa.
A consultora de moda e customização Karen de Cássia Assis conduz as oficinas práticas apresentando técnicas, “pulos do gato” e estratégias para aproveitar ao máximo os materiais disponíveis, incentivando as participantes a explorarem novas possibilidades criativas sem perder a identidade de cada grupo.
“Tá sendo incrível, principalmente porque elas já tinham uma boa experiência em costura, então a gente consegue avançar bem no trabalho. A ideia é que elas criem a identidade delas e desenvolvam a coleção que irão apresentar no desfile. O que elas recebem aqui é uma orientação. O desfile, desde o pensamento como estilista, a projeção, parte delas, com autonomia delas”, destaca Karen.
As roupas doadas, principalmente esportivas, estão sendo transformadas em novas peças de vestuário e acessórios.
“A ideia é mostrar pra elas que não existe limitação e incentivá-las a explorar diversas possibilidades, especialmente de estilo, pois a partir de praticamente qualquer material podemos criar roupas sociais, de alfaiataria... Tudo é possível, só vai depender da criatividade delas. Espero que elas não se limitem e busquem abraçar toda a gama de possibilidades”, incentiva a professora.
Com foco na inserção no mercado, parte da produção já começou a atender demandas reais. Entre os produtos desenvolvidos estão toucas profissionais feitas a partir de camisetas reaproveitadas, destinadas ao uso em cozinhas e estabelecimentos comerciais.
“É um item que inicialmente não pensávamos em fazer, mas como já apareceram interessados em adquirir, estamos produzindo”, explica Karen.
Moda como identidade, autonomia e transformação
Entre as participantes dessa fase de pré-incubação está Adryana Santos Oliveira Torres, líder de um dos grupos selecionados. Formada em moda e atualmente cursando pós-graduação na área, ela sonha em criar uma cooperativa voltada especialmente para mulheres com filhos pequenos e mães atípicas, oferecendo oportunidades de trabalho e geração de renda.
Para Adryana, o projeto vai muito além da costura.
“Eu estou achando uma maravilha, porque hoje nós impactamos o meio ambiente de uma forma muito negativa. E aqui estamos reaproveitando aquilo que iria para o lixo e transformando em algo luxuoso, que pode ser usado em qualquer ocasião. Dependendo da forma como você utiliza a peça, ela pode ir de uma feira até um casamento. O intuito é não desperdiçar”, relata ela, que também destaca o ambiente de troca construído durante as oficinas.
“Aqui está sendo realmente uma troca de experiências. O que uma tem curiosidade de aprender, encontra outra que já tem alguma experiência. Então não estamos só adquirindo conhecimento, mas construindo amizades. E eu tenho certeza de que isso vai contribuir muito com as comunidades das quais a gente faz parte”, afirma.
A relação de Adryana com a costura começou por necessidade. Ela conta que, durante anos, enfrentou dificuldades para encontrar roupas que servissem em seu corpo e fossem confortáveis.
“Eu fui aprendendo a fazer roupa para mim e para os meus filhos. O dinheiro que entrava era para alimentação e para os custos da casa, então muitas vezes eu mesma produzia as roupas. Depois disso fui me profissionalizando. Hoje eu amo criar, transformar uma peça, trabalhar com criatividade. E também ensinar o que vou aprendendo”, diz.
Para ela, a moda é uma forma de expressão pessoal e social.
“As roupas falam. A forma como você se veste mostra sua personalidade, sua identidade, como você se coloca no meio da sociedade. Então, para mim, moda é muito mais do que vestir”, completa.
Geração de renda e continuidade
Além das oficinas práticas de costura e customização, o projeto oferece consultoria em empreendedorismo, economia solidária, vendas e comunicação, preparando as participantes para transformar a produção em oportunidade concreta de renda.
A expectativa é que, até o final de junho, os grupos consigam lançar uma coleção de produtos customizados produzidos a partir do material apreendido, com valor agregado e identidade própria. O encerramento da fase de pré-incubação contará com desfile e exposição, além de feira para venda das peças produzidas.
Mais do que um curso, a proposta da Incubadora Social da UFT é criar condições para que os grupos consigam se organizar em formato de associação e as suas atividades tenham continuidade de forma autônoma após o término das oficinas, fortalecendo o empreendedorismo feminino, a sustentabilidade e o desenvolvimento comunitário em Palmas.