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Debates sobre complexidade, educação e sustentabilidade marcam abertura da Escola Internacional de Verão do Futuro Edgar Morin
A Universidade Federal do Tocantins (UFT) realizou, nesta segunda-feira (1º), a abertura da primeira edição da Escola Internacional de Verão do Futuro Edgar Morin. O evento reúne pesquisadores, estudantes, gestores públicos e representantes da sociedade para debater temas relacionados à complexidade, educação, sustentabilidade, biodiversidade e aos desafios contemporâneos da humanidade.
Realizada no Câmpus de Palmas, a Escola marca um novo capítulo na trajetória da UFT ao fortalecer sua inserção internacional e promover o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, em sintonia com o legado do pensador francês Edgar Morin, falecido na última semana aos 104 anos.
A solenidade de abertura contou com a presença de representantes das instituições públicas de ensino superior do Tocantins, órgãos governamentais, Prefeitura de Palmas e entidades parceiras, como a Fundação de Apoio Científico e Tecnológico do Tocantins (Fapto) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt).
Para a reitora da UFT, Maria Santana, a criação da Escola representa um importante passo no processo de internacionalização da universidade e na construção de novas formas de pensar o papel da educação superior.
“A partir do momento em que a gente cria uma Escola de Verão do Futuro, é pensar, de fato, com pesquisadores e pesquisadoras de fora do Brasil, também do Brasil, que estão discutindo essa questão. Ou seja, há uma universidade possível. Que universidade é essa? Uma universidade que, de fato, trabalha com as comunidades, uma universidade que conecta entre as áreas”, destacou.
Segundo a reitora, a iniciativa servirá de base para a criação de um centro de referência em complexidade e transdisciplinaridade na universidade. “Estamos também criando, a partir da Escola, um centro de referência na universidade. Os professores serão convidados, os programas de graduação e de pós-graduação serão convidados a participar desse momento para discutir a complexidade e a transdisciplinaridade”, afirmou.
Maria Santana também relembrou a trajetória da UFT junto ao pensamento de Edgar Morin. Segundo ela, a relação da universidade com as discussões sobre complexidade e transdisciplinaridade remonta a 2009, quando a instituição realizou seminários internacionais com a participação de pesquisadores ligados ao pensador francês.
A reitora recordou ainda que, naquele período, Edgar Morin recebeu da UFT o título de Doutor Honoris Causa, reforçando os vínculos construídos entre a universidade e o intelectual francês.
A continuidade desse trabalho foi destacada pelo ex-reitor Alan Barbiero, que esteve à frente da instituição na época. “Em 2009, nós elaboramos e realizamos um seminário internacional com a presença do Edgar Morin e de várias autoridades internacionais para consolidar uma ideia de universidade e entender os desafios que estávamos vivendo naquele momento”, relembrou.
Para Barbiero, a criação da Escola Internacional de Verão do Futuro representa o amadurecimento de um processo iniciado há quase duas décadas. “Fico muito feliz de ver agora, em 2026, na gestão da professora Santana e de vários colegas, a realização e a implantação da Escola Internacional de Verão do Futuro Edgar Morin. Esse é o papel que a universidade precisa cumprir, que é buscar dialogar com diferentes formas de pensamento e diferentes formas de visão de mundo.”
Fronteira do conhecimento
Um dos idealizadores da Escola, o professor Waldecy Rodrigues ressaltou que o evento projeta a universidade para além das fronteiras regionais e nacionais. “Esse evento coloca a UFT na fronteira do conhecimento, da complexidade e da transdisciplinaridade. Nos coloca em uma posição internacional muito interessante, de acordo com uma visão mais integral e comunitária do desenvolvimento.”
Segundo ele, a iniciativa não se encerra com a programação desta semana. A expectativa é que a Escola dê origem a novas ações permanentes de pesquisa, formação e cooperação internacional.
“Da Escola vai surgir o Centro Internacional de Complexidade, Transdisciplinaridade e Inovação, que será a união de universidades do mundo que estudam esses temas. A ideia é tornar a UFT uma referência internacional e fazer com que esse conhecimento esteja cada vez mais presente na graduação, na pós-graduação e na formação dos nossos jovens.”
Ao comentar o falecimento de Edgar Morin, Waldecy destacou que o intelectual acompanhou a organização da Escola até os últimos dias. “O professor Edgar Morin acompanhou toda a organização desse evento. Para nós foi uma surpresa muito triste, mas estamos aqui justamente revivendo o seu legado.”
Complexidade e futuro
Após a abertura oficial, a programação seguiu com o Painel I – Complexidade e Futuro, mediado pela reitora Maria Santana e composto pela educadora Maria Cândida Moraes, pelo sociólogo Alfredo Pena-Vega e pelo professor e ex-ministro da Educação Cristovam Buarque.
Em sua exposição, Maria Cândida Moraes provocou reflexões sobre o papel da educação diante das crises contemporâneas e sobre a necessidade de formar cidadãos conscientes, livres, solidários e capazes de enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais complexo.
A pesquisadora também prestou homenagem a Edgar Morin, a quem definiu como um “ecologista das ideias” e um “artesão dos saberes”, destacando sua capacidade de dialogar com diferentes áreas do conhecimento e de construir uma visão humanista voltada para o futuro do planeta.
“Quem é esse ecologista das ideias, esse artesão dos saberes, que transitou ousadamente pelas mais diversas áreas do conhecimento? Foi um humanista planetário que durante toda a sua vida foi movido por uma razão apaixonada e apaixonante.”
Já Alfredo Pena-Vega, pesquisador francês que trabalhou diretamente com Morin e esteve na UFT ao lado do intelectual em 2009, destacou a atualidade de seu pensamento.
“O pensamento de Morin é um pensamento aberto. Onde você se encontra, no campo do saber onde você está, você pode dialogar. Não é um pensamento para aprender de memória e repetir cada vez as mesmas coisas. É um pensamento de interrogação, para se questionar.”
Para Pena-Vega, a força das ideias de Morin está justamente na capacidade de promover conexões entre diferentes áreas. “É um pensamento que estimula a criatividade das pessoas. Por isso ele está presente em todos os campos do saber.”
Educação, esperança e transformação
Encerrando o painel, Cristovam Buarque conduziu uma reflexão sobre os desafios das universidades diante das transformações sociais, ambientais e tecnológicas do século XXI.
Segundo ele, a primeira mudança necessária é reconhecer que o atual modelo universitário precisa ser repensado: “A grande maioria da comunidade acadêmica não percebe a necessidade de mudar. Eles acham que está tudo bem. E não está.”
Cristovam defendeu uma formação mais multidisciplinar e conectada com os problemas reais da sociedade: “Não dá para o médico ser só médico, ele tem que ser um pouco filósofo. Não dá para o economista ser só economista, ele tem que ser um pouco ecólogo. Não dá para o nutricionista ser apenas nutricionista, ele tem que ser um pouco economista.”
Ao abordar o papel social das universidades, o professor reforçou a necessidade de ampliar o compromisso com a educação básica brasileira.
“A esperança está nas crianças. A universidade precisa carregar todos os dias o que puder fazer para melhorar a educação de base no Brasil.”
Para ele, a produção de conhecimento deve estar associada à transformação da realidade: “Não basta pensar o mundo. É preciso contribuir para transformá-lo.”
Natureza, meio ambiente e sustentabilidade
A programação da manhã contou ainda com o Painel II – Natureza, Meio Ambiente e Sustentabilidade, reunindo Ricardo Rossi, Elimar Pinheiro do Nascimento, Sergio Schneider e Patrick Caron, sob mediação da professora Gisele Barbosa de Paiva.
As discussões abordaram temas relacionados à crise ambiental, ao desenvolvimento sustentável, à preservação da biodiversidade e à necessidade de construção de novos modelos de relação entre sociedade e natureza.
Programação
A Escola Internacional de Verão do Futuro Edgar Morin segue até o dia 5 de junho com palestras, mesas-redondas, oficinas e atividades voltadas ao diálogo entre ciência, educação, sustentabilidade e saberes tradicionais.
A programação inclui ainda, nesta segunda-feira, a solenidade de concessão do título de Doutor Honoris Causa aos professores Alfredo Pena-Vega e Elimar Pinheiro do Nascimento, em reconhecimento às contribuições acadêmicas de ambos para os estudos da complexidade, da sustentabilidade e do desenvolvimento humano.
Ao reunir pesquisadores de diferentes países e áreas do conhecimento, a iniciativa reafirma o compromisso da UFT com a produção científica, a internacionalização e a construção de respostas coletivas para os desafios do presente e do futuro.
A programação completa você confere aqui.
O evento pela manhã foi transmitido ao vivo e pode ser visto no canal oficial da UFT no Youtube.