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    Da tela para a sala de aula: pesquisa da UFT usa stop-motion para pensar o ensino de Filosofia na era digital
    PESQUISA E ENSINO

    Da tela para a sala de aula: pesquisa da UFT usa stop-motion para pensar o ensino de Filosofia na era digital

    Dissertação de Aline Aquino Alves recebeu menção honrosa na premiação Filósofas – Melhores Dissertações do Prof-Filo 2026 e propõe transformar a linguagem das imagens em ferramenta de reflexão e criação

    Por  Virgínia Magrin  | Publicado em 30/09/2026 - 11:32  | Atualizado em 30/09/2026 - 13:05
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    Em um cotidiano marcado por vídeos curtos, imagens que se sucedem rapidamente e informações que chegam de diferentes direções, como criar espaços para que estudantes parem, pensem e construam seus próprios sentidos? Foi a partir dessa inquietação, surgida na prática docente, que a egressa da Universidade Federal do Tocantins (UFT) Aline Aquino Alves desenvolveu a dissertação Stop Motion: uma experiência de desfragmentação no ensino de Filosofia a partir de Vilém Flusser e Paul Ricoeur.

    O trabalho recebeu menção honrosa na premiação Filósofas – Melhores Dissertações do Prof-Filo 2026. A dissertação também foi considerada a melhor entre os trabalhos defendidos no período de 2025-2026 no Programa de Mestrado Profissional em Filosofia em Rede, que reúne instituições de ensino superior de diferentes regiões do país.

    Mais do que investigar os efeitos das tecnologias digitais sobre a experiência dos estudantes, Aline buscou compreender como a própria linguagem tecnológica poderia ser utilizada no ensino de Filosofia. A resposta encontrada foi o stop-motion: uma técnica que transforma uma sequência de imagens em movimento e que, na pesquisa, passou a funcionar também como espaço de criação, reflexão e construção coletiva.

    “O que a gente pode fazer a partir da própria tecnologia para conseguir alcançar um resultado contrário? E aí eu encontrei no Stop Motion essa possibilidade de trabalhar com a própria linguagem das imagens, da tecnologia, mas de uma maneira diferente”, explica Aline.

    Uma inquietação que veio da sala de aula

    A origem da pesquisa está na experiência da própria professora. A partir de 2022, no período posterior à pandemia, Aline percebeu uma presença cada vez mais intensa dos celulares e de outras tecnologias digitais no cotidiano dos estudantes.

    A observação levou a uma questão: “Como ensinar filosofia para os estudantes que estão ali vivendo uma experiência profundamente marcada pelas imagens, por uma alta velocidade de circulação de informações”, conta.

    A pesquisa passou, então, a investigar não apenas os possíveis impactos dessas tecnologias, mas também o papel da escola e do ensino de Filosofia nesse cenário. O trabalho dialoga principalmente com as reflexões de Vilém Flusser, especialmente sobre as imagens técnicas e os aparelhos, e com a filosofia de Paul Ricoeur, em torno do tempo, da narrativa e da compreensão de si.

    A proposta desenvolvida por Aline partiu de uma escola estadual de Palmas, onde estudantes participaram da produção de narrativas em stop-motion relacionadas a questões filosóficas.

    A técnica, nesse contexto, não foi utilizada apenas para tornar a aula mais atrativa. A ideia era fazer com que os estudantes deixassem a posição de espectadores e passassem a atuar na construção daquilo que seria pensado e produzido. “A intenção era transformar essa técnica, essa tecnologia, em um instrumento de criação, de reflexão, de construção e de mediação do conteúdo filosófico”, explica a pesquisadora.

    Fragmentar para reunir

    Há uma relação direta entre a técnica utilizada e a questão central da dissertação. Para produzir um stop-motion, uma ação precisa ser dividida em pequenas etapas. Depois, essas imagens são organizadas em sequência até formar uma narrativa.

    Para Aline, esse processo permite pensar justamente o movimento contrário à fragmentação percebida no cotidiano digital: separar, organizar, relacionar e, finalmente, construir um sentido. “A proposta era justamente pensar se seria possível utilizar uma linguagem associada a essa questão que é a fragmentação da experiência, a velocidade de acesso ao mundo digital para construir justamente um movimento contrário, reunir experiências, narrar essas experiências, refletir sobre elas e produzir coletivamente novos sentidos.”

    A professora destaca que a experiência reforçou uma característica do próprio trabalho docente: o aprendizado não ocorre apenas em uma direção. “Na sala de aula, você está ali junto com os estudantes, você pode ensinar filosofia, mas você também aprende com os estudantes”, pontuou ela.

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    Filosofia conectada à experiência dos estudantes

    Para o orientador da dissertação, professor Leon Farhi, a pesquisa aproxima o ensino de Filosofia de uma questão presente no cotidiano dos estudantes. Segundo ele, Aline encontrou na obra de Flusser elementos para realizar uma leitura crítica da relação contemporânea com aparelhos digitais, aplicativos e redes sociais. Em Ricoeur, encontrou ferramentas para pensar a reconstrução do sujeito e de sua experiência por meio da narrativa.

    Para ele, o reconhecimento recebido pela dissertação também evidencia a possibilidade de produção científica em diferentes contextos universitários. “É uma clara demonstração de que, em universidades de pequeno porte, como a UFT, podem ser desenvolvidas pesquisas de grande alcance”, avalia.

    Entre universidade, escola e pesquisa

    A relação de Aline com a UFT começou ainda na graduação em Filosofia. Durante a formação, participou do Programa de Residência Pedagógica, experiência que, segundo ela, contribuiu para aproximá-la da ideia do professor como pesquisador de sua própria prática.

    Depois de formada, retornou ao programa, dessa vez como preceptora, recebendo estudantes da graduação nas escolas e desenvolvendo projetos filosóficos com eles.

    Atualmente, Aline é professora efetiva da Rede Estadual de Educação do Tocantins e atua como professora substituta no curso de Licenciatura em Filosofia da UFT.

    Para ela, receber o reconhecimento justamente neste momento, quando voltou a integrar o colegiado do curso, tem um significado particular.

    “Esse reconhecimento representa muito mais do que uma premiação somente pelo trabalho realizado no mestrado. Ele representa uma confirmação de que uma inquietação que surgiu na minha prática como professora de filosofia poderia se transformar em uma pesquisa capaz de produzir reflexão e, ao mesmo tempo, de dialogar concretamente com a sala de aula.”

    A pesquisadora também relaciona sua trajetória às oportunidades vivenciadas na universidade e ao trabalho coletivo envolvido na pesquisa: “A UFT sempre vai ter um lugar muito especial para mim, porque ela possibilitou minha graduação, o meu mestrado.”

    Ela faz questão de dividir o reconhecimento com professores, servidores, orientador e, especialmente, com os estudantes que participaram da pesquisa: “É uma forma também de demonstrar a importância que tem a Universidade Pública, que teve e que continua tendo na minha vida”, afirma.

    Do papel até chegar à escola

    Por se tratar de um mestrado profissional, a pesquisa não se encerra na discussão acadêmica. A dissertação também apresenta o passo a passo da experiência desenvolvida com os estudantes, com a intenção de oferecer possibilidades para que outros professores possam adaptar a proposta às suas próprias realidades.

    Aline explica que essa preocupação acompanha sua trajetória como pesquisadora. Desde o Trabalho de Conclusão de Curso, passando pelo mestrado e agora pelo doutorado, ela busca produzir textos que possam ser compreendidos também por quem está fora da universidade.

    “Será que os meus estudantes do ensino médio conseguem ler a minha pesquisa? E aí é tendo essa centralidade que eu tento deixar de forma mais clara possível para que qualquer pessoa consiga acessar ela e tirar suas próprias conclusões.”

    O produto da dissertação se insere, assim, na própria proposta do Prof-Filo: aproximar pesquisa e prática docente e compartilhar metodologias que possam contribuir para o ensino de Filosofia em diferentes contextos da Educação Básica.

    Aline atualmente também desenvolve o doutorado na área de ensino de Filosofia, voltado especificamente para a educação indígena. A continuidade da pesquisa mantém a relação entre universidade, escola e diferentes realidades educacionais do Tocantins.

    Ao olhar para o percurso que começou com uma inquietação diante das telas e chegou a uma experiência de criação coletiva em sala de aula, a pesquisadora identifica no reconhecimento recebido um incentivo para continuar investigando.

    “É um incentivo muito grande para a gente continuar pesquisando e pensando o ensino de filosofia a partir das várias realidades que a gente tem na educação tocantinense.”

    E, no caso da pesquisa de Aline, talvez a ideia central esteja justamente nesse movimento: usar uma linguagem construída a partir de pequenos fragmentos para ajudar estudantes a organizar experiências, construir narrativas e produzir novos sentidos.


    Tags:  Prof-Filo,  Filosofia,  Palmas,  Propesq,  Proex.  
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