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    Palmas, Cidade-armário: Direito à cidade, direito de aparecer
    PONTO DE VISTA

    Palmas, Cidade-armário: Direito à cidade, direito de aparecer


    Por  Talisson Santos  | Publicado em 05/01/2026 - 14:37  | Atualizado em 05/01/2026 - 16:07
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    Em novembro de 2025, apresentei na UnB, no XXI Cinabeth, o trabalho “Cidade-armário? A diversidade LGBTI+ e o direito à cidade em Palmas”, fruto do meu TCC em Arquitetura e Urbanismo na UFT (2024), orientado pela Dr.ª Patrícia Orfila. Sustento que Palmas é uma cidade-armário, regulando a visibilidade LGBTI+ pela forma urbana, pelas normas e pela política de “segurança”, atravessadas por uma moral cristã que define o que pode aparecer.

    Talisson Santos apresentando o trabalho Palmas Cidade-Armário na UnB. - Foto: Acervo pessoal

    Haraway (1995) chama de conhecimento situado o saber que assume corpo, história e território. Por isso, olhei o espaço público de Palmas sem fingir neutralidade. A Praça dos Girassóis encena a imagem oficial da cidade. Sua escala e seus símbolos cristãos organizam a paisagem como se houvesse uma única voz autorizada. Nessa moldura, existências passam como paisagem; outras viram problema, definindo quem detém a cidade enquanto direito.

    Esse filtro vira prática cotidiana. Ele está no medo do banheiro público, na autocensura do afeto, no cálculo de rota e horário, no cuidado para não “chamar atenção”. Aparece também no carnaval. No Brasil, carnaval é rua: o corpo vira linguagem pública e hierarquias se embaralham. Em Palmas, a Prefeitura organiza o período por agenda e por lei, como a Lei nº 2.357/2017, e centraliza o feriado no Capital da Fé. Quando o poder público eleva uma matriz religiosa a cultura oficial, outras tradições, especialmente afro-brasileiras, viram ruído, folclore ou “desvio”. O resultado é um carnaval tutelado: menos comum, mais disciplina

    Mesmo assim, a rua insiste. Meu trabalho registra a repressão ao CarnaMujica, em 2019 e 2020. A resposta veio primeiro como violência; depois, como edição: versões aceitáveis e vendáveis, limpas do que (e de quem) incomoda.

    No CINABETH, essa discussão encontrou outras experiências. Vi saberes situados em áreas distintas, da saúde ao cinema, da ecologia ao direito, do design à educação. Ali, gênero e sexualidade deixavam de ser “identitário” e viravam lentes para ler políticas, práticas profissionais e vida cotidiana.

    Grupo de Trabalho, pesquisadores de várias regiões do Brasil - Foto: Acervo pessoal

    A pesquisa também recompõe uma memória queer de Palmas. Retomo a Dama de Palmas, boate aberta em 2003, em pleno conservadorismo local. A partir daí, chego às cenas contemporâneas: o Toca Ballroom, coletivo que fomenta a cultura ballroom no Tocantins, e o Baile Della, produzido pela DJ Dellanoche, criam cenas onde corpos dissidentes não pedem licença para existir: ensaiam presença, inventam linguagem, atribuem novos sentidos ao que era só estrutura. O vão livre do Espaço Cultural, corriqueiramente esvaziado, ganha corpo, espaços da UFT também entram como infraestrutura dessa aparição, abrindo frestas onde a cidade planejada costuma impor silêncio.

    Registro do baile della edição halloween com presença (e protagonismo) do Tocaball. - Foto: @cameraxt (Instagram)

    A ballroom chama de “casa” a família escolhida: cuidado, arte, treino, acolhimento e presença pública. Palmas ainda está por fazer, inclusive sua história. Tratar diversidade como exceção tolerável é continuar construindo armários. Sair deles, aqui, é obra pública.

    Referências

    SANTOS, Talisson. Cidade-armário? A diversidade LGBTI+ e o direito à cidade em Palmas. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2024.

    HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41, 1995.

    Conforme as diretrizes estabelecidas, os textos publicados na seção Ponto de Vista do Portal UFT são de responsabilidade de seus autores e autoras. As opiniões expressas nestes artigos são pessoais e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional da Universidade.

    Sobre o autor

    Talisson Santos é arquiteto e urbanista (UFT), ex-integrante do GEDUR/UFT. Obteve 1º lugar do Campus Palmas no Prêmio do XX Seminário de Iniciação Científica da UFT. Desenvolve trabalhos em Arquitetura e Urbanismo com foco em direito à cidade, espaço público e diversidade LGBTI+ em Palmas (TO).

    E-mail: talisson.silva@uft.edu.br

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