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    Tese sobre alimentação do povo Akwẽ-Xerente recebe menção honrosa em prêmio nacional
    RECONHECIMENTO

    Tese sobre alimentação do povo Akwẽ-Xerente recebe menção honrosa em prêmio nacional

    Pesquisa realizada nas Terras Indígenas Xerente e Funil relaciona segurança alimentar à proteção do território, aos saberes ancestrais e aos modos de vida indígenas

    Por  Virgínia Magrin |  | Publicado em 29/10/2026 - 12:25  | Atualizado em 29/10/2026 - 12:26
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    A segurança alimentar de um povo não depende apenas da disponibilidade de comida ou da renda das famílias. Para o povo indígena Akwẽ-Xerente, ela também está relacionada à proteção do território, à preservação dos recursos naturais e à continuidade de práticas alimentares tradicionais. Essa é uma das conclusões da tese de doutorado de Cássia Araújo Moraes Braga, desenvolvida na Universidade Federal do Tocantins (UFT), que recebeu menção honrosa no Prêmio Rede Penssan 2026, na categoria Tese de Doutorado.

    Intitulado A segurança alimentar e o povo indígena Akwẽ-Xerente, o trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da UFT, sob orientação da professora Reijane Pinheiro da Silva. A pesquisa foi realizada nas Terras Indígenas Xerente e Funil e investigou como as transformações territoriais e ambientais associadas ao modelo de desenvolvimento no Tocantins afetam os sistemas alimentares tradicionais.

    Para Cássia, o reconhecimento reforça a importância de dar visibilidade aos saberes e às lutas indígenas. “A pesquisa científica, para além de produzir conhecimento, pode contribuir para revelar realidades historicamente invisibilizadas, subsidiar a formulação de programas e políticas públicas e fortalecer a construção de caminhos que respeitem os direitos, os saberes e as especificidades dos povos indígenas”, afirma.

    Entre os resultados, Cássia destaca mudanças nos hábitos alimentares, com maior presença de alimentos ultraprocessados, impactos ambientais que comprometem práticas tradicionais de obtenção de alimentos e limitações das políticas públicas convencionais para avaliar a insegurança alimentar em contextos indígenas.

    “A insegurança alimentar não decorre somente da insuficiência de renda ou da dificuldade de comprar alimentos. Ela também está relacionada às transformações territoriais, às pressões ambientais e às mudanças que afetam a autonomia alimentar e a reprodução dos modos de vida tradicionais do povo Akwẽ-Xerente”, explica a pesquisadora.

    Para ela, um dos aspectos centrais do estudo é compreender que a alimentação ultrapassa a necessidade biológica. “Para o povo Akwẽ-Xerente, a alimentação não se resume ao ato de comer: ela está profundamente ligada ao território, à identidade cultural, à coletividade e à relação com a natureza”, afirma.

    Foto Cássia - Pesquisa de campo.jpeg
    Foto Reijane - Pesquisa de campo.jpeg
    Foto equipe de pesquisa.jpg

    Políticas públicas e saberes indígenas

    A pesquisa também questiona a aplicação de modelos padronizados de avaliação da segurança alimentar sem considerar as particularidades culturais e territoriais dos povos indígenas. A tese apresenta elementos para ampliar essa compreensão, inclusive a partir de reflexões sobre a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) e seus limites teóricos e metodológicos em contextos indígenas.

    A professora Reijane Pinheiro da Silva ressalta que conhecer os sistemas alimentares indígenas é fundamental para aproximar as políticas públicas das realidades dessas comunidades. Segundo ela, a pesquisa apresenta as perspectivas do povo Akwẽ-Xerente sobre alimentação e território e amplia a própria compreensão do que significa ter segurança alimentar.

    “Para que exista segurança alimentar para os seres humanos, o território precisa estar protegido e todos os seres com os quais os Akwẽ compartilham o espaço devem também ter alimentos em quantidade suficiente e regularidade”, destaca a orientadora.

    Nesse sentido, a preservação das Terras Indígenas, dos rios, das florestas e do Cerrado também integra as estratégias de segurança alimentar. A tese aponta a importância de políticas que apoiem práticas tradicionais, como as roças, e considerem as condições de caça, pesca e coleta de alimentos, respeitando os conhecimentos e as decisões das próprias comunidades.

    Para Reijane, esse processo exige diálogo entre diferentes formas de produzir conhecimento. “O caminho que se apresenta é o diálogo intercientífico”, afirma. Ela observa que os saberes indígenas podem contribuir para repensar os sistemas alimentares e desenvolver formas sustentáveis de produção, com menor impacto sobre os biomas.

    O reconhecimento no Prêmio Rede Penssan tem, para Cássia, significado acadêmico, profissional e pessoal. A pesquisadora avalia que a ciência pode contribuir para dar visibilidade a realidades historicamente pouco consideradas e subsidiar a formulação de políticas públicas que respeitem os direitos e as especificidades dos povos indígenas.

    Sobre o prêmio

    O Prêmio Rede Penssan, promovido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, reconhece trabalhos acadêmicos relacionados ao tema. A edição de 2026 homenageia Ana Maria Segall Corrêa.

    Mais informações: Prêmio Rede PENSSAN 2026


    Tags:  PPGDR,  Pesquisa,  Propesq,  Palmas.  
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